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MEDITAÇÃO
E LIBERDADE
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por
Érika Palma
Certa vez
um grande amigo me disse que admirava minha disciplina, vendo-me meditar
regularmente. Perguntei-lhe, então, se já havia pensado em experimentar
o mesmo, no que ele me respondeu: "- Estou beirando meus 50 anos, moro
neste lugar calmo, livre do stress da cidade grande. Tenho o mar , o
nascer e o pôr-do-sol ao meu alcance. Trabalho menos hoje e procuro
alimentar-me melhor, longe da loucura das grandes cidades, sinto que
a meditação para mim não é necessária".
De alguma
maneira, ele estava certo, sim. Mora numa cidade paradisíaca, à beira
mar. Está numa fase da vida que pode dar-se ao luxo de viver com mais
tranqüilidade, o dinheiro não lhe falta e está distante da loucura dos
grandes centros. Mas, veio-me na mente a situação seguinte: e se, de
repente, por um desses infortúnios da vida, ele tivesse que abandonar
a vida mansa...e se tivesse que mudar para uma São Paulo da vida, por
exemplo, por um motivo qualquer? Será que conseguiria manter a paz e
a tranqüilidade no meio da correria, do stress?
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O fato
é que a meditação é um grande veículo para nos mantermos estáveis diante
das adversidades da vida. Sentir paz e tranqüilidade diante de um céu
aberto e ouvindo o balanço das ondas do mar, é tudo muito fácil. Mas
todos nós sabemos que a vida consiste em altos e baixos. Momentos alegres
e tristes, estamos sempre diante desses paradoxos. Também é muito comum
associarmos felicidade `a obtenção de coisas, ou acharmos que nossa
alegria depende de determinado acontecimento. Quando tudo dá certo,
ótimo, mas quando não dá... Felizmente, o yoga apresenta-nos uma alternativa.
Segundo sua filosofia, qualquer um está apto a vivenciar uma experiência
com o Divino, que lhe trará paz e felicidade duradouras. E o melhor,
encontrar paz dentro, e não fora. Em conseqüência, experimenta "liberdade".
Bhagavad
Gita,Cap. V, Verso 24:
"Aquele
cuja felicidade é interior
cujo contentamento é interior, cuja luz é toda interior,
Aquele yogui, sendo um só com Deus,
atinge liberdade eterna em consciência divina".
E como
viver no Divino e no mundo simultaneamente? A proposta yoguica, sem
a devida compreensão, parece-nos impraticável. Pois estar unido com
Deus sempre nos foi exposto como algo comum a renunciantes, sacerdotes,
enfim, `aqueles que se dedicam exclusivamente a buscar Deus.
Bhagavad
Gita, Cap.V , Verso 12:
"Aquele
que está unido com o Divino
atinge
a paz duradoura"
E aí que
nos enganamos. Interiorizar-se, trazer a consciência para dentro, para
esse universo rico que já está dentro, é uma proposta aberta a todos,
ao chefe de família, a dona de casa, ao executivo, a alguém como você.
E qual o requisito necessário? Disciplina e determinação. Pela experiência
da meditação, firmamo-nos no propósito de que o mundo exterior não é
o campo da felicidade. E se a felicidade não pertence ao mundo exterior,
ela só pode estar dentro de nós mesmos.
A meditação,
pelo poder que tem em desarmar-nos, desinflando nosso ego, abre nossos
olhos a essa verdade. Verdade simples, mas que o homem comum complica
sempre, e é por este motivo também que vive buscando a felicidade onde
ela não está.
Só que
o despertar para essa paz, para essa existência de uma própria luz que
se encontra interiormente, requer um firme propósito de estar com Deus.
Esse Deus que não pode ser visto, que é pura experiência. Portanto,
pode ser sentido, desde que estejamos determinados e disciplinados para
tanto.
Bhagavad
Gita , Cap. V, Verso 26:
"Homens
disciplinados, livres do desejo e da ira,
que disciplinaram seus pensamentos e realizaram o Ser,
encontram em toda parte
liberdade eterna em consciência divina."
Disciplinar
seus pensamentos - significa viver Deus na vida diária. Com essa vivência,
o homem sente-se feliz e capaz de resistir `a excitação nascida do desejo
e da ira. Isto significa que ainda é possível o borbulhar da excitação
do desejo e da ira neste homem. Mas, uma vez feliz, unido com o Divino,
ele será capaz de resistir a esta excitação.
A prática
regular da meditação dá-nos o presente maravilhoso da "liberdade". Descobrimos
que a felicidade, ainda que oculta, está dentro, acessível, e passamos
a não depender de nada, nem de ninguém para sermos felizes. Estabelecidos
em Deus, o contemplativo pode estar livre para sempre:
Bhagavad
Gita, Cap. V, Verso 28:
"O
sábio, cujos sentidos, mente e intelecto estão controlados,
cuja meta é a liberação,
do qual se foram o desejo, o medo e a ira,
está na verdade livre para sempre".
Logo, o
praticante constante, determinado, nada faz para expulsar esses sentimentos
de desejo, medo e ira que trazem infelicidade e aprisionam. Muito pelo
contrário, ele percebe que esses sentimentos se foram, o abandonaram.
E como a meditação nos desarma, o meditante, reconhecendo Deus como
o grande Senhor de todo o mundo, como o amigo de todos os seres, atinge
a paz, ele experimenta a paz.
Bhagavad
Gita , Cap. V, Verso 29:
"Havendo
conhecido a Mim
como o grande Senhor de todo o mundo,
como o amigo de todos os seres,
Ele atinge a paz".
Assim,
a proposta de Deus não teria sentido se não fosse a expansão da felicidade,
que ele quer que conheçamos em vida, agora, no hoje. Os homens podem,
ou não, desfrutar do amor de Deus expressado na criação, cada qual,
em seu próprio nível de consciência. É o livre arbítrio. Deus, como
doador da felicidade e , em conseqüência, da liberdade, coloca-as a
disposição de todos os seres. Aquele que O conhece e sente-se perto
Dele, adquire realização:
"ele atinge a paz".
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